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"Academia global de violação": Investigação da CNN revela rede de homens que partilham técnicas para violar as suas mulheres
Ao longo de uma investigação que durou vários meses, o canal americano infiltrou-se em grupos e plataformas onde os utilizadores fazem circular vídeos e conselhos sobre como drogar, filmar e agredir as parceiras.
Quantos casos Gisèle Pelicot existem em todo o mundo?
A história de Gisèle Pelicot, uma mulher de setenta anos que foi violada pelo marido e por dezenas de outros homens, teve um impacto mundial, demonstrando que os autores de crimes desta natureza podem ser "pessoas comuns" de todas as idades e profissões.
Uma investigação inicialmente levada a cabo pelas jornalistas alemãs Isabell Beer e Isabel Ströh, e depois ampliada pela CNN no mês passado, confirma que este caso está longe de ser único.
No final de março, cinco jornalistas do canal americano descobriram a existência de uma rede de homens que trocavam vídeos e fotografias de mulheres inconscientes, violadas, fotografadas e filmadas sem conhecimento pelos próprios parceiros, em fóruns, grupos privados e sites pornográficos.
Os jornalistas conseguiram, nomeadamente, infiltrar-se em grupos de discussão em que os homens se encorajam mutuamente e trocam conselhos para escapar à justiça.
Este sistema é difícil de quebrar, uma vez que as pessoas envolvidas agem anonimamente, em espaços onde reina uma forma de "fraternidade" masculina. A CNN chega mesmo a falar de uma "academia global da violação".
Vídeos alojados em site pornográficos
Algumas das imagens identificadas pela CNN não estão alojadas em plataformas obscuras da darknet, mas sim no site pornográfico Motherless.com, que é acessível a toda a gente.
Mais de 20 mil vídeos de mulheres a serem agredidas sexualmente ou violadas durante o sono - classificados como "conteúdo do sono" - totalizam centenas de milhares de visualizações.
O site, que registou 62 milhões de visitas só em fevereiro e cujos utilizadores se encontram principalmente nos Estados Unidos, descreve-se como um anfitrião "moralmente falido".
Algumas das imagens abjetas que circulam no site ultrapassam as 50 mil visualizações.
Nestes vídeos, os homens filmam-se a levantar as pálpebras fechadas das mulheres para mostrar que estão a dormir e drogadas sem o seu conhecimento.
Alguns utilizadores chegam a oferecer transmissões em direto, mostrando a violência infligida a mulheres sob a influência de drogas em tempo real, por 20 dólares por espetador.
A criptomoeda parece ser o método de pagamento preferido. Um deles partilhou um excerto de um livestream anterior, que disse ter feito para incentivar os utilizadores a assistir ao próximo. O vídeo mostra uma mulher, que apresenta como sua parceira de sono, a ressonar enquanto ele se deita em cima dela. Depois, o vídeo pára.
"A sua mulher não vai sentir nada"
As discussões prosseguem em grupos do Telegram, como o designado "Zzz", onde trocam informações, por vezes muito pormenorizadas, sobre a forma de drogar as parceiras, incluindo os tipos de drogas a utilizar, as doses recomendadas e as técnicas a utilizar para evitar serem detetados. Um homem que vive em Ceuta, enclave espanhol que faz fronteira com Marrocos, afirma que vende e envia "comprimidos líquidos para dormir" para qualquer morada no mundo. "A sua mulher não vai sentir nada e não se vai lembrar de nada", promete, com fotografias dos pacotes, acrescentando que este produto "insípido e inodoro" é vendido por 150 euros o frasco.Os jornalistas da CNN tiveram também uma longa conversa com um certo Piotr, que apregoa os seus métodos criminosos. "Os jornalistas perguntaram-lhe: "A sua mulher suspeita de alguma coisa? "Para já, escondo tudo bem, mas tenho de ter cuidado", respondeu o homem. A CNN queria ter a certeza de que este homem de quarenta e poucos anos era quem dizia ser, por isso os jornalistas foram à sua cidade natal, na Polónia. Conseguiram identificá-lo num restaurante, na companhia da mulher, e alertaram a polícia.
Os meios de comunicação social americanos encontraram várias mulheres que tinham sido vítimas de tais atos, como Zoe Watts, de Devon, em Inglaterra, que soube que o homem com quem estava casada há 16 anos tinha começado a esmagar os comprimidos para dormir do filho e a colocá-los no chá para a poder violar e filmar enquanto ela estava inconsciente. "Preocupamo-nos em ir para o carro à noite num parque de estacionamento, mas não nos preocupamos com a pessoa que dorme ao nosso lado ", testemunhou.
O seu agora ex-marido confessou-lhe os abusos enquanto regressavam da missa com os quatro filhos, num domingo de 2018, confessando que a violava há anos. Foi condenado a onze anos de prisão.
Consequências devastadoras para as vítimas
Em Itália, Valentina, que depõe sob pseudónimo, descobriu vídeos filmados pelo marido com quem estava casada há 20 anos, que o mostravam a agredi-la depois de a ter drogado com comprimidos para dormir e álcool. "Tive a sorte de encontrar esses vídeos, porque, francamente, teria sido um pouco... difícil de acreditar, uma vez que eu não tinha quaisquer marcas", diz a mãe de dois filhos, que sofreu graves cicatrizes psicológicas. "Embora possa parecer feliz e sorridente lá fora, mas quando chego a casa ainda tenho de lidar com os meus pesadelos, que estão sempre lá", conta.
O ex-companheiro foi condenado em 2021 a oito anos de prisão por múltiplas agressões sexuais agravadas.
Em França, durante o processo de violação de Mazan, Jean-Pierre M. era um dos co-arguidos, acusado de violar não só Gisèle Pelicot, mas também a própria mulher, que também tinha sedado em várias ocasiões, seguindo os conselhos de Dominique Pelicot.
Entre 2015 e 2020, o homem de 63 anos admitiu ter cometido uma dúzia de tentativas de violação e violações contra a mãe dos seus cinco filhos, demonstrando a reprodução do sistema de violência iniciado por Dominique Pelicot. Jean-Pierre M. foi condenado a doze anos de prisão em dezembro de 2024 neste julgamento histórico.
Juliette Campion / France Télévisions / 23 abril 2026 14:13 GMT+1
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP